'A MINHA FILHA DEITOU FORA A BARBIE CURVILÍNEA'

quinta-feira, abril 19, 2018


Queridos/as leitores/as, hoje venho mostrar-vos algo que não foi escrito por mim, mas que não podia deixar de partilhar.

Deixo-vos então com uma experiência relatada em primeira mão pela querida blogger/instagrammer Allison Kimmer, promotora do movimento Body Positivity.


"Enquanto limpava as bancadas de granito da infinidade de pequenas migalhas que sempre se acumulam por lá, abri metodicamente a tampa do lixo, quando algo me chamou a atenção:
Era a Barbie da minha filha no meio da pilha de lixo.
Mas não era qualquer Barbie. Era a sua única Barbie curvilínea. Vocês sabem - a versão que é um pouco mais larga da Barbie que a marca criou na tentativa de promover a inclusão.
M: "Cambelle!" chamei-a.
C: "O que foi mamã?", perguntou ela enquanto entrava na cozinha a segurar uma das suas Barbie's "regulares".
M: "Deitaste esta Barbie fora?" perguntei.
C: ”Ummmmmm. Sim." Respondeu, sabendo que provavelmente não era a coisa certa a fazer.
M: ”Okayyyy. Podes explicar-me porque deitaste fora um dos teus brinquedos perfeitamente bons?"
C: ”Porque não gosto dela." 
M: "O que queres dizer com o não gostas dela?" 
C: ”Os braços dela não estão bem. As pernas não estão bem. Ela não é parecida com as minhas outras Barbie's. E ela não cabe em nenhuma roupa exceto esta."
Eu parei. Eu fiquei sem palavras. Honestamente senti algumas lágrimas começarem a escorrer dos meus olhos. Relacionei-me com esse objeto inanimado. Era como se a vida curvilínea da Barbie fosse um reflexo do modo como eu me sentia há tanto tempo, ser uma mulher Pluz Size no mundo de mulheres magras.
Eu sempre senti que os meus braços não estavam bem, que as minhas pernas não estavam bem, e que a qualquer lugar que eu fosse, nada me encaixava. Por muito tempo, permiti que essas percepções e os constrangimentos da sociedade fizessem sentir-me como se eu fosse lixo.
A Barbie curvilínea ainda está a viver num mundo de Barbie's magras. Adicionar uma Barbie com mais curvas não vai, de repente, resolver a nossa gordofobia e abrir espaço para a aceitação de todos os tipos corpos.
Assim como ter mais opções de roupas maiores não vai mudar a percepção da sociedade sobre as mulheres acima de um tamanho 40.
M: ”Como achas que a Barbie se sente agora que a deitaste ao lixo? Achas que foi uma coisa boa de se fazer?"
C: "Não. Eu acho que ela está a chorar e que se sente triste."
M: "Só porque o corpo dela é diferente das restantes, isso significa que ela está errada?"
C: ”Não mamã. Porque ela tem mais gordura. E não há problema em ter mais gordura."
M: "E só porque as roupas das outras não lhe servem, isso significa que ela não tem direito a brincar com as outras Barbie's?" 
C: Não mamã. Temos que ser bondosos para todos." 
M: "Tens amigas que são diferentes de ti?" 
C: Sim mamã. Algumas têm pernas magras e outras, como eu, têm pernas que se tocam”. 
M: ”Ok, vamos deixar essa discussão para outra altura. Achas que podes dar-lhe um banho e encontrar alguma roupa para ela vestir?"
C: Sim mamã.
Phewwww! Para ser honesta, eu não estava pronta para uma conversa como aquela naquele momento. Nunca estive. Mas de cada vez que surge uma situação destas, eu posso ignorar os sinais de precoces de problemas de autoimagem e deixá-los passar com um "oh, ela é apenas uma criança a brincar com as suas Barbie's, talvez ela não goste realmente dela, mas NÃO IMPORTA" ou posso fazer um esforço consciente para a ajudar a dissecar como ela se sente, permitir que ela me explique o seu desconforto e dar-lhe uma nova perspetiva para ela refletir.
Entendi. É mais fácil fazer o primeiro. Mas parentalidade não é fácil. E se queremos criar uma nova geração de crianças confiantes, para a inclusão corporal, então temos de COMEÇAR EM CASA. Começa connosco, pais, a perguntar-nos: estou realmente a ser o exemplo que quero que os meus filhos sigam? Estou ciente das coisas que os meus filhos vêem diariamente? Estou a tirar tempo suficiente para explicar o que eles estão a ver e o que isso significa para ajudar numa compreensão bem arredondada e realista do seu corpo e dos corpos de outras pessoas?
Deitar fora a Barbie, só porque ela não se encaixou com as outras, é um sinal de que ela está a aprender a rejeitar o que é diferente e a aprender a associar o ser-se maior com o ser-se pior ou menos merecedor. A verdade é que todos nós temos tamanhos diferentes ao longo da nossa vida. Surtos de crescimento, “gordura de bebê”, diferenças sociais/econômicas/psicológicas e os fluxos e refluxos pelos quais um corpo em mudanças passa durante a vida são inevitáveis. Há uma mensagem muito forte a ser passada pelos mídia, de que devemos sempre parecer iguais o tempo todo e que há apenas uma maneira certa de se parecer (magra) - e é um momento crítico para ter uma voz ainda mais alta para garantir aos nossos filhos que SER DIFERENTE realmente é OK, os nossos corpos vão mudar e tudo faz parte da vida.
Espero que estes bocados de conversas que tenho com meus filhos te ajudem a ver o quanto os fatores externos influenciam os nossos filhos desde muito cedo. Mesmo em atividades tão simples e inofensivas quanto brincar com Barbie's, as crianças podem começar a desenvolver crenças sobre si mesmas e sobre os outros. A coisa mais importante que podemos fazer é estar cientes e fornecer um ambiente positivo e educativo para os nossos filhos para que possam explorar o que significa ser humano e compreender as diferenças únicas que todos nós temos para desenvolver empatia, compaixão e aceitação."

Que inspiração de mulher, de ser humano. Infelizmente ainda vivemos num mundo em que a raça, formato corporal, ... ainda são mais importantes do que sermos todos iguais. E somos. Viemos todos do mesmo sítio, e não é por ser mais gordinha que tenho de ser descriminada, deixada de lado.
Devemos educar os nossos filhos e mostrar-lhes que, independentemente do que nos torna diferentes, somos todos iguais e que temos todos os mesmos direitos.
Por um mundo melhor. Obrigada Allison por nos inspirares.
Artigo original, aqui.

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34 comentários

  1. Infelizmente o ser humano é muito preconceituoso ainda. Mas adorei esse relato!

    Beijo!
    Cores do Vício

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  2. Que texto lindo! Sem dúvida uma história linda e uma grande mulher! Deveriamos ser todos como essa senhora no que diz respeito a este assunto. Obrigada por partilhares isto :)

    Beijinhos ❤️
    I. e A.
    https://nevertoolatetoturnback.blogspot.pt/

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    1. Não tens de quê, temos de partilhar estas coisas não é verdade? :)

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  3. Obrigada pela partilha deste texto, confesso que estou sem palavras... Beijinhos*

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  4. Que texto! Por mais pessoas assim, que saibam ensinar a vida sem descriminações.
    Para quem tem falta de autoestima este texto acerta bem no ponto!

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  5. Nossa adorei a tua partilha, é mesmo verdade ainda há pessoas que pensam assim, mas o que eu sempre digo todos somos iguais dependendo do corpo que temos.
    Beijinhos
    Novo post (Novo post de Compras) // CantinhoDaSofia /Facebook /Intagram
    Tem post novos todos os dias

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  6. É realmente uma inspiração o que está aqui escrito e a forma como ela reagiu foi a melhor. Obrigada por partilhares connosco.
    Beijinho

    doce-branca.blogspot.pt

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  7. Postagem incrível adorei.
    Beijos

    https://glamour-02.blogspot.com.br/

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  8. Wow!
    Ameeei!
    Justamente hoje que fiz um post sobre Plus Size!
    Perfeito este texto!

    Bju no seu coração!

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  9. Cara... que texto mais PODEROSO! "Adicionar uma Barbie com mais curvas não vai, de repente, resolver a nossa gordofobia e abrir espaço para a aceitação de todos os tipos corpos." ela disse exatamente tudo com essa frase, é assim mesmo que me sinto em relação á Barbie negra. É muito complicado e achar que tudo vai estar resolvido por inserir uma Barbie diferente no meio das dentro do padrão vai resolver tudo, é utopia. Trabalhar a inclusão é um trabalho muito mais árduo do que isso e, felizmente, pessoas como a Allison têm feito isso direitinho <3
    Um beijão,
    Gabs | likegabs.blogspot.com ❥

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    1. Temos de começar a fazer a inclusão em casa e só depois tentar levá-la ao resto do mundo, se não estamos perdidos.

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  10. Com certeza a postagem mais forte que li hoje. É muito importante que as crianças aprendam determinadas situações mas ao mesmo tempo é tão difícil explicar certas coisas a coisinhas tão pequeninas, né? Eu sou uma garota magra, e jamais poderei descrever o incomodo que algumas mulheres gordas sentem, mas imagino, apenas IMAGINO, como seja difícil lidar com o preconceito da sociedade e torço, muito, pra que tudo isso um dia de fato melhore. Eu sofro em determinadas situações por ser magra demais. É algo que me incomoda. Mas, não posso nem comparar as situações, porque por causa da sociedade em que vivemos, tenho alguns privilégios. Injusto, muito.
    Amei o post
    Um beijinho!
    http://yasmimgil.blogspot.com.br/

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    1. É injusto mesmo, e muitas das vezes ser gordo não significa não ter saúde.
      Infelizmente vivemos num mundo em que temos de ser todos iguais para sermos aceites.

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  11. Uma história bem comovente e um abre olhos!!

    FAZ AS TUAS PERGUNTAS: http://abpmartinsdreamwithme.blogspot.pt/2018/04/q-5-facam-as-vossas-perguntas.html

    Beijinhos ♥

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  12. Ainda bem que resolves-te partilhar esta história pois eu adorei ler. Às vezes as crianças têm certas atitudes e por vezes não sabemos como lidar com tais situações.
    Beijinhos
    http://virginiaferreira91.blogspot.pt/

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    1. Têm e temos de lhes explicar porque certas atitudes estão mal.

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  13. Que grande inspiração! É verdade! Somos todos iguais, independentemente das nossas (pequenas) diferenças! :D

    amarcadamarta.blogspot.pt

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  14. A educação sempre começa em casa, com mães e pais ensinando o que é certo e errado para os filhos. Muito boa a conversa que essa mãe teve com a filha. Não é um corpo, uma raça ou uma religião que nos torna melhor que o outro, já que somos todos iguais.
    Beijinhos!

    galerafashion.com

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    1. Viemos todos do mesmo sítio e vamos todos para o mesmo sítio, ninguém é mais que o outro.

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  15. Infelizmente ainda existem pessoas que querem nos dizer que devemos seguir padrões. Que possamos ensinar aos pequenos que isso não existe e que somos únicos com todas as nossas particularidades lindas! ;)

    beijos!

    https://ludantasmusica.blogspot.com.br

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    1. Exatamente querida, somos todos lindos, da maneira que somos, e porque não somos todos iguais.

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  16. acho louvável a atitude dessa mãe, deve-se ensinar as crianças desde muito cedo a aceitarem-se a si e aos outros tal como são, só eu sei o que sofri quando era nova por ser gorda e não foi por causa das barbies com que eu brincava serem magras, foi pelas pessoas mesmo. às vezes damos valor a coisas como os brinquedos e esforçamo-nos tanto por fazer "brinquedos inclusivos" e "roupas inclusivas" que nos esquecemos que a inclusão começa em casa, na educação. beijinhos :) https://ratsonthemoon.blogspot.pt/

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    1. Exatamente, passei exatamente pelo mesmo, mas infelizmente este mundo está cada vez pior.

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